Quebrar paradigmas para gerar eficiência

Pedro Armante Carneiro Machado Presidente da AEAMESP

Em tempos de crise e da busca por retomar o crescimento, é preciso quebrar paradigmas obsoletos. Um bom exemplo disso é a ideia muito difundida do alto custo dos transportes sobre trilhos.

 

Quem diz que metrôs e ferrovias são investimentos caros demais para a capacidade do nosso país provavelmente não leva em conta o longo ciclo de vida desse tipo de empreendimento, realçando apenas o investimento inicial.  Quando implantado para atender demanda compatível com sua capacidade, após 30 ou 40 anos de operação um sistema sobre trilhos terá saído mais barato do que outros – e terá oferecido melhores serviços para a sociedade que o custeou.

 

Além disso, é preciso considerar que empreendimentos metroferroviários bem planejados induzem a dinamização das relações econômicas e sociais, gerando riqueza e bem-estar. Isso vale para uma área específica da cidade, quando se trata de metrô, e também para uma região e para o país como um todo, quando está em foco o transporte ferroviário de longa distância.

 

“Empreendimentos metroferroviários

bem planejados induzem a dinamização

das relações econômicas e sociais, gerando riqueza e bem-estar.”

 

 

O desafio que se coloca é a obtenção de recursos de fontes não governamentais para auxiliar na implantação ou no custeio de empreendimentos de metrôs ou ferrovias. Em recente conferência na AEAMESP, a Japan Rail West mostrou que mais de um terço de suas receitas provém de outros negócios associados à prestação do serviço de transporte ferroviário. É necessário encontrar soluções inovadoras e adequadas a nossa realidade levando em conta os exemplos exitosos de outros locais.

 

Ambiente regulatório. O cenário atual contempla a convivência de múltiplos operadores metroviários ou ferroviários. Para garantir a segurança e a qualidade do serviço, é imprescindível a existência de entes reguladores devidamente capacitados. Questões relevantes, tais como interoperabilidade, direito de passagem e padronização do serviço prestado devem ser equacionadas.

 

Não se pode conceber, por exemplo, que os usuários percebam diferença de nível de serviço ao mudar de uma linha de metrô para outra numa mesma rede; em termos ideais, até a identidade e comunicação visual deveriam ser padronizadas, independendo do operador da linha.

 

Qualificação urbana. Sistemas metroferroviários apresentam diversos exemplos de benefícios para as cidades. A Linha 1 do metrô paulistano induziu significativas melhorias no seu entorno ao longo dos seus mais de 42 anos de operação. Observemos também o caso recente do VLT carioca, que além de propiciar a integração entre diversos modos de transporte com terminais na área central do Rio de Janeiro, está também revitalizando toda aquela porção da cidade.

 

Nas metrópoles, a mobilidade eficiente exige um sistema de transporte estruturado, com base numa rede de trilhos, alimentada por ônibus e integrada ao transporte individual, ao transporte a pé e por bicicleta e que também leve em conta a acessibilidade universal.

 

Intermodalidade e logística. Analogamente, o aparato nacional de produção agrícola e industrial necessita um sistema de transporte estruturado com base em uma rede ferroviária, integrada com rodovias e hidrovias, que sirva tanto à distribuição interna quanto às exportações.

 

Com frequência somos informados de que rodovias intransitáveis por causa das chuvas retêm centenas de caminhões, que em muitas regiões constituem a única forma de escoar a produção agrícola.

 

Caminhões transportando o que deveria ser carregado por trens significa que os prejuízos econômicos e financeiros, a ineficiência e a perda de competitividade do produto nacional estão sendo negligenciados.

 

Evidencia também que não estamos tirando todo o proveito de nossa potencialidade produtiva, por incapacidade de garantir os meios adequados de transporte nos 365 dias do ano, com chuva ou sol.

 

As questões abordadas neste artigo e outras igualmente relevantes estarão em debate na 23ª SEMANA DE TECNOLOGIA METROFERROVIÁRIA, que a AEAMESP promoverá, de 19 a 22 de setembro de 2017, na Universidade Paulista (UNIP), Campus Paraíso, Rua Vergueiro, 1211, São Paulo – SP.