Preterir o Futuro: ATÉ QUANDO?

Por Auro Doyle Sampaio Vice-presidente da ABEE

No exercício diário da profissão de engenheiro que optou pela devoção abnegada ao desenvolvimento e melhoria incondicional da infraestrutura existente em nosso país, não raramente me deparo com situações, problemas e alegações cuja origem, teor e densidade são há muito tempo bem conhecidos por muitos dos que militam com seriedade na área. No entanto, a frequência com que são colocados e logo em seguida retirados, para não dizer esquecidos, pelos que os colocam em debate salta aos olhos, mas não sem nos deixar uma indagação.

Anualmente, no Município de São Paulo, de maneira especial, mas não exclusiva, no período das chuvas, a população é vitimada por um enorme número de árvores que, segundo dizem, “acidentalmente” vêm abaixo, provocando danos materiais imediatos a veículos e casas atingidos por seus escombros e até mesmo, por vezes, vítimas fatais.

Cabe ressaltar que tais fatos acontecem apesar do enorme esforço das equipes técnicas de operação e manutenção envolvidas que, por “razões outras”, algumas das quais apontaremos a seguir, não conseguem atender a tempo e satisfatoriamente a população diante da enorme demanda por seus serviços.

 

“É inevitável e fundamental a

revisão e atualização dos ‘padrões’ adotados…”

 

Vislumbrando esse cenário, os gestores de ambas as instituições (Concessionária de Energia/Municipalidade) optaram por uma solução que identificaria como válida, se fosse unicamente temporária e paliativa, fato que foi originalmente colocado, que seria o seguinte: ambos contratariam e gerenciariam um cadastro e um programa para poda das árvores visando a impedir ou minimizar o contato das copas dessas árvores com as redes de energia e infovias envolvidas no trajeto.

Esse programa foi criado há, no mínimo, trinta anos, e converteu-se num dos principais e mais vultosos contratos de terceirização da Municipalidade e da Concessionária.

Tecnicamente e responsavelmente falando, eu não poderia apenas apontar o problema sem indicar solução!

 

A saudosa concessionária de energia LIGHT de São Paulo, empresa de origem canadense e berço da engenharia elétrica urbana brasileira, onde também tive a honra de aprender e trabalhar, deixou-nos, em São Paulo e no Rio de Janeiro nos idos dos anos 1970, o que ainda hoje poderemos chamar o futuro da distribuição de energia elétrica e infovias para uma cidade devidamente planejada. Ressalto que os canadenses sabem, como poucos, o que é enfrentar intempéries e contornar a adversidade com boa engenharia. Como diríamos aqui, sabem muito bem “pegar o limão e fazer uma boa limonada”.

Quando, nos anos 70, houve o aumento prodigioso da escala de consumo de energia, a LIGHT S/A brindou-nos com o famoso sistema de distribuição de energia reticulado que, em São Paulo, foi concebido preliminarmente (com mais duas expansões) para atender unicamente ao centro (velho) da cidade. Esse sistema, passados 40 anos, segue em operação e garante-nos, até hoje, o pleno êxito de fornecimento de energia e meios de sustentação e trânsito para as novas infovias, vivendo quase exclusivamente de boa e competente manutenção e sem obras de modificações.

Disso podemos concluir que a defesa da implantação de redes de infraestrutura de energia, infovias e demais serviços por via subterrânea, tendo como horizonte máximo o período de 20 anos, faz-se urgente e necessária, de maneira a estancar essa sangria aos cofres das organizações, ao erário e, principalmente, às populações e ao meio ambiente urbano. É inevitável e fundamental a revisão e atualização dos padrões adotados para dimensionamento e precificação das contratações e execuções das redes de infraestruturas subterrâneas, principalmente aqueles apresentados pelas concessionárias de energia, uma vez que pautados em tais princípios técnicos.  A evolução da tecnologia dos materiais e dispositivos em nível mundial, bem como a produção com qualidade e a busca por soluções competitivas com precificação inferior, principalmente aquelas advindas da Ásia, certamente viabilizariam um fornecimento adequado, desde que num certame de disputa global tecnicamente competitivo.

Deixo, ainda, uma sugestão pessoal: quem não conhece o Canadá, aprecia as coisas da engenharia e deseja um Brasil melhor para todos, deveria permitir-se esse belo momento de vida. Certamente, quem o fizer renovará as esperanças num desenvolvimento viável e não se arrependerá.