Mentalidade Disruptiva

Por Alexandre Pelegi Comunicação da ANPTrilhos

Tem-se tornado constante no noticiário a divulgação de novidades tecnológicas que teriam o condão de, se não resolver de vez, ao menos mitigar muitos dos problemas urbanos. Fala-se da “Quarta Revolução Industrial”, como resultado da tecnologia da informação e da eficiência. Estima-se que inúmeras transformações surgirão em breve, trazendo um verdadeiro terremoto econômico: indústrias e segmentos inteiros irão desaparecer como por encanto para dar lugar a novos projetos que, afirma-se, por vezes estarão resumidos a um mísero software.

No segmento da mobilidade urbana, fala-se com deleite e expectativa do primeiro carro sem motorista, e as apostas projetam que, já em 2020, parte da indústria automotiva estará às voltas com a chamada “disruptividade do segmento”. Eis aí uma nova palavra para integrar o vocabulário modernoso, traduzida na prática pelo fenômeno do Uber. Disruptiva é a tecnologia ou inovação que altera definitivamente as regras do jogo e vai muito além do que projeta a inovação revolucionária:  enquanto esta produz um grande impacto, a primeira subverte o mercado. O sistema de táxis que o diga…

“A história ensina que novos

desafios requerem novos remédios.”

Para novas realidades e novos tempos, novos nomes. Adentramos “o século das cidades”, cujas características principais podem ser detectadas na junção de urbanização e informatização que, apostam alguns, estariam convergindo no uso de uma gestão inteligente como forma de garantir a competitividade e sustentabilidade das cidades. Afinal, altas taxas de urbanização – uma tendência irreversível em todo o planeta – desafiam as cidades a serem necessariamente sustentáveis, sob o risco de se tornarem caóticas num curto prazo. A história ensina que novos desafios requerem novos remédios. Isso equivale a dizer que as formas tradicionais de gestão urbana estão ultrapassadas e são incapazes de lidar com o célere crescimento urbano e suas nefastas consequências: o uso indiscriminado de energia, o aumento da poluição e a crescente desigualdade social.

Os enormes desafios da mobilidade urbana passam então a se dar num cenário muito mais complexo: nesse novo modelo de gestão urbana, impõe-se que as cidades tornem-se mais inclusivas, sejam economicamente competitivas e ambientalmente mais sustentáveis. A questão do uso intensivo do automóvel – e o que fazer para diminuí-lo – fará parte expressiva do pano de fundo das transformações necessárias.

Pelo cenário atual, percebe-se que teremos forte resistência dos usuários de automóveis a qualquer alteração do status quo. Exemplos disso são os jornais e TVs que, que apesar da farta existência de estudos e pesquisas realizados há décadas, ainda insistem em tratar como problemas isolados as infrações de trânsito e os acidentes provocados por motoristas inconsequentes. Basta olhar os dados para concluir que essas são faces de uma única moeda: o infrator de trânsito é o maior produtor de risco à vida das pessoas nas cidades. Dados da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) de São Paulo demonstravam recentemente que 67% dos envolvidos em acidentes fatais possuíam multas por graves desrespeitos ao trânsito (e à cidade), como excesso de velocidade e avanço de sinal vermelho.

Enquanto muitos cidadãos insistirem em colocar benefícios individuais acima das necessidades coletivas, qualquer revolução urbana ficará tão somente no universo das palavras. Essa mentalidade disruptiva, que subverte o direito de todos para garantir benefícios para poucos sem se preocupar com as graves consequências que tal escolha produzirá, precisa ser duramente combatida. A começar por aqueles que pleiteiam cargos públicos nas próximas eleições municipais. Uma maneira de medir o compromisso dos candidatos com o futuro das cidades é verificar a quem seus projetos beneficiam. Temas como redução de velocidade, prioridade ao transporte público coletivo, estímulo ao transporte ativo e à intermodalidade, preocupação com a questão ambiental, controle e planejamento do uso do solo urbano, dentre outros, podem definir bem o perfil do candidato.